Coluna Pesquisa Aplicada, na Nova Escola: O que faz um economista da Educação?

2018-05-30T10:06:07+00:00 30/05/2018|

Por trás dos termos difíceis, há um profissional que também quer ajudar a melhorar a Educação

Por Fabio Waltenberg, na Nova Escola*

Ainda que o interesse pelo assunto não seja recente, por muito tempo a Educação não foi tratada por economistas como objeto habitual de pesquisas.  No entanto, em meados do século passado, teóricos passaram a relacionar Educação com produtividade, e produtividade com crescimento econômico. Então, de tema marginal, a Educação foi arrastada rumo ao centro da análise econômica, e técnicas de pesquisa passaram a ser aplicadas para investigá-la, seja do ponto de vista micro, seja macroeconômico.

Na teoria do capital humano, a Educação era mero instrumento para se alcançar outros objetivos, como renda pessoal ou crescimento econômico. Mas, pouco a pouco, passou a ter um valor intrínseco. Uma das razões para essas transformações foi o desenvolvimento de métodos estatísticos aplicados à Economia – a chamada econometria. Com processamento de dados cada vez mais potente e barato, aperfeiçoou-se a econometria, e hoje muitos economistas da Educação dedicam quase toda sua energia a estudos desse tipo.

Mas, afinal, o que faz na prática um economista da Educação? Como ele pode contribuir para melhorar a educação de um país? Identificar relações de causa e efeito entre fenômenos, de preferência com implicações para políticas públicas, é uma das suas formas de atuação. Por exemplo:  mais computadores em uma escola ajudam a melhorar o conhecimento dos alunos? Para responder a essa pergunta, o ideal seria comparar os mesmos alunos (ou turmas, ou escolas, ou municípios) em duas situações: com e sem os novos computadores. Como isso é impossível, esse profissional procura situações próximas à de um experimento controlado: comparam alunos parecidos, turmas similares ou municípios assemelhados. É o que está por trás de nomes incompreensíveis a quem não é da área, como “regressões descontínuas”, “variáveis instrumentais”, ou “diferenças em diferenças”.

Estudos econométricos talvez sejam a face mais visível da economia da Educação no Brasil. Eles tornaram-se possíveis pela disponibilidade de dados, como aqueles divulgados por órgãos como o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e também gerados por testes de conhecimentos, como PISA e Prova Brasil, e seus homólogos estaduais e municipais.

A economia da Educação também recebeu outras influências, como a da literatura sobre o estado de bem-estar social, que tenta compreender quais políticas sociais, incluídas as de educação, seriam mais eficientes e mais justas. Por exemplo: Educação pública e gratuita é um arranjo eficiente e justo? Para responder a essa questão, mobilizam-se dois conjuntos de instrumentos. De um lado, um instrumental teórico próprio à economia, que combina conhecimento já bem antigo (teoremas do bem-estar, bens públicos, poder de mercado ou economias de escala) com desenvolvimentos mais recentes, como informação assimétrica ou economia comportamental. Do outro lado, debater justiça requer abordar teorias de justiça. O que é um sistema de Educação justo? Para um marxista, será uma coisa; para um libertário, outra; um social-democrata terá uma visão diversa, e assim por diante.  É possível estudar de forma serena, desapaixonada, tais preferências normativas e suas consequências sobre a configuração de políticas sociais, inclusive de educação. Investigá-las em conjunto com o instrumental teórico da economia nos ajuda a esboçar as políticas ideais para cada posição ideológica, respeitando restrições e recomendações da teoria econômica.

Não se esgotam aí as influências: da economia do trabalho, por exemplo, pode-se extrair lições sobre prós e contras de diferentes sistemas de remuneração e estrutura de carreira de profissionais da educação. Já a economia da saúde oferece discussões e estudos práticos sobre eficiência e equidade na alocação de recursos. A literatura de medidas de pobreza e desigualdade de renda contribui para se mensurar o grau de injustiça de um sistema de Educação. A lista poderia continuar por muitas linhas mais…

Mas não é só isso. O economista da Educação não pode permanecer à margem dos debates nas ciências afins. Um bom exemplo são as habilidades socioemocionais. Por algum tempo, o economista limitou suas análises a exames como a Prova Brasil e o PISA, pois pareciam ser a perfeita tradução de “qualidade de Educação”: objetivos mensuráveis e comparáveis entre indivíduos, no tempo e no espaço.  Gradativamente, porém, o contato com pesquisas de áreas como Pedagogia e Psicologia evidenciou que habilidades socioemocionais das crianças e jovens, não medidas nas avaliações mais usuais, são tão ou mais importantes que as notas em Língua Portuguesa ou Matemática. Como então reduzir qualidade da Educação a notas em provas de conhecimentos?

Pode-se dizer que o economista da Educação do século XXI deve ser uma espécie de malabarista. Deve conhecer e aplicar econometria, para identificar relações de causa e efeito, e para julgar resultados produzidos por colegas. Deve dominar teorias econômica e de justiça, para defender ou criticar esta ou aquela política, equilibrando legítimas preocupações de eficiência e de justiça. Por fim, precisa reconhecer os limites do seu campo de estudo, cultivando diálogo contínuo com economistas de outras sub-áreas, e mantendo-se permeável aos incontáveis malabares das interdisciplinaridades, para não ficar à margem do que outras ciências revelam.

Ao longo dos anos, tenho tentado equilibrar malabares. Ao aceitar o desafio de escrever neste espaço, tentarei expor o que o exercício do ofício de economista da educação tem me oferecido como aprendizado. Conto com a colaboração dos leitores para apontar desequilíbrios nos malabares que voarem por aqui e para me chamar a atenção para malabares esquecidos ou ainda desconhecidos.

*Fabio Waltenberg é doutor em economia pela Université Catholique de Louvain, na Bélgica, e professor da Universidade Federal Fluminenese (UFF). Ele estuda economia da Educação e coordenou o projeto “Escolha ocupacional pelo magistério: por que muitos bons alunos não se tornam professores?”

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