Pesquisa mostra como alunos e professores enxergam valores como solidariedade e justiça

2019-02-08T16:10:29+00:00 08/02/2019|

Valor mais difícil de ser alcançado por estudantes foi o de convivência democrática. Estudo evidencia importância de uma educação que contemple valores sociomorais

Por Adriano Moro, para a coluna Pesquisa Aplicada, na Nova Escola 

A recém aprovada Base Nacional Curricular Comum (BNCC) recomenda que a Educação Básica brasileira propicie a formação e o desenvolvimento humano global dos estudantes, de modo que possam ser capazes de construir uma sociedade mais justa, ética, democrática, responsável, inclusiva, sustentável e solidária. São amplas dimensões que compreendem a formação integral de um cidadão, contemplando aspectos cognitivos, afetivos, sociais e valorativos. Nesse sentido, a educação em valores sociomorais, tais como solidariedade, respeito, generosidade e justiça, faz parte do desenvolvimento de habilidades e competências necessárias aos alunos. Assim, hoje, quero apresentar uma avaliação educacional que teve como propósito mensurar justamente os valores sociomorais em alunos e professores da Educação Básica.

Em 2015, a Fundação Carlos Chagas (FCC) reuniu um grupo de pesquisadores de diferentes universidades do Brasil e iniciou uma pesquisa com o objetivo de construir, testar e validar uma escala para avaliar a adesão de alunos e professores aos valores sociomorais de justiça, respeito, solidariedade e convivência democrática. (TAVARES. et al., 2016)

O objetivo foi identificar como os estudantes e docentes têm se posicionado frente a situações que envolvem valores morais. Isso ajuda na avaliação dos efeitos do emprego de materiais didáticos, programas e intervenções que visam favorecer a construção de valores sociomorais no âmbito escolar, apontando se são ou não efetivos, e em que medida.

Para o desenvolvimento da pesquisa, construiu-se uma matriz conceitual dos valores foco de análise, a partir dos seguintes referenciais teóricos: os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1998) – em seus cadernos sobre Ética – e conceitos da Psicologia da moralidade de Jean Piaget (1977 [1932]) e de Lawrence Kohlberg (1992).

Para mensurar a construção de valores morais, Piaget analisou o julgamento moral e a tomada de consciência do respeito às regras a partir de jogos e histórias fictícias envolvendo as ações de crianças. Ele estudou como elas raciocinam, explicam e resolvem situações que abrangem o uso de valores como igualdade, justiça, reciprocidade, cooperação e solidariedade, entre outros. A partir dos resultados de suas investigações, Piaget formulou a chamada “teoria psicogenética interacionista do desenvolvimento moral”, qualificadas pelos estágios pré-moral (ausência de moralidade e de regras); de moralidade heterônoma (obediência à autoridade); e de moralidade autônoma (autonomia).

Já Kohlberg (1992), dando continuidade aos estudos de Piaget, usou dilemas morais para investigar os níveis de raciocínio moral. Ele utilizou histórias hipotéticas, nas quais dois ou mais valores morais se contrapunham, exigindo uma decisão da criança. Com isso, revelava-se a perspectiva social a partir da qual os argumentos eram construídos. Segundo o autor, a perspectiva social ou percepção social refere-se a “como as pessoas veem as outras, interpretam seus pensamentos e sentimentos e consideram o papel e o lugar que ocupam em sociedade” Kohlberg (1992, p. 186). A partir da perspectiva social, Kohlberg descreveu três níveis de julgamento moral: 1. o pré-convencional, em que o indivíduo age levando em conta seus próprios interesses (egocêntrico); 2. o convencional, onde seus atos estão centrados nas normas sociais, familiares ou do grupo ao qual pertence (sociocêntrico); 3. o pós-convencional, em que há uma perspectiva mais avançada e as ações do sujeito são justas, levando em consideração o que é bom para ele e para qualquer outra pessoa do mundo (moral).

Na pesquisa da Fundação Carlos Chagas (FCC) foram elaborados questionários de 35 questões para cada um dos quatro valores (justiça, respeito, solidariedade e convivência democrática) a serem avaliados. Eles foram apresentados na forma de situações-problema, baseando-se em cenas do cotidiano de alunos ou professores e que poderiam ocorrer em diferentes espaços (na escola, na internet, com a família, etc.). Para cada questão foram apresentadas três alternativas favoráveis ao valor avaliado e duas contrárias a ele. Além disso, as alternativas se constituíam em níveis, que evidenciam, a partir da perspectiva social, o modo de adesão ao respectivo valor (perspectivas egocêntricasociocêntrica moral).

Os questionários foram aplicados em crianças (alunos do 5º ao 8º ano do Ensino Fundamental), adolescentes (9º ano do ensino fundamental e 1º ao 3º ano do ensino médio) e professores da educação básica, de escolas públicas e privadas. Os resultados apontaram algumas tendências: uma delas foi que os professores apresentaram níveis mais avançados de adesão aos valores do que os adolescentes e estes, por sua vez, mais do que as crianças. No valor de solidariedade, as crianças e adolescentes alcançaram, mais frequentemente, níveis mais avançados (mais sociocêntrico do que egocêntrico). Já os professores se concentraram numa perspectiva ainda mais avançada (a propriamente moral), o que não aconteceu nos outros valores.

O valor mais difícil de ser alcançado pelos estudantes foi o de convivência democrática, inclusive com respostas que assumiam posições não democráticas. Os professores, por sua vez, aderiram a este valor de modo sociocêntrico. Para os professores, o valor mais difícil, especialmente com relação às perspectivas mais avançadas foi o da justiça. De modo geral, o nível de adesão aos valores numa perspectiva propriamente moral foi muito difícil nos três grupos de participantes da pesquisa, sendo alcançado somente por professores no valor solidariedade.

Tais resultados reforçam a ideia de que a construção de relações mais justas e respeitosas é, sem dúvida, uma meta importante para a Educação. A escola, dependendo da qualidade das interações estabelecidas em seu interior, constitui-se um local propício para que esse desenvolvimento ocorra. Não estamos desconsiderando o papel formativo da família, porém, sabemos que é no ambiente escolar que o(a) aluno(a) irá conviver com o âmbito público (referindo-se ao coletivo) e a diversidade, e estabelecer relações de igualdade. É preciso, portanto, um olhar mais aprofundado para as questões da convivência e da formação de valores éticos. Entendemos que a construção, manutenção e convivência dos atores escolares em um ambiente cujo clima seja positivo podem promover uma experiência de formação valorativa ampliada. Isto é, uma formação para além das instruções e conhecimentos técnicos, com sentido ético e moral, onde o respeito, a solidariedade e a justiça sejam vividos e apreendidos por todos, fazendo da educação um valor. Um valor moral.

*Adriano Moro é doutor em Educação pela Unicamp e mestre em Psicologia da Educação pela PUC-SP. Ele integra o Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação Moral (Gepem), da Unicamp/Unesp e atua no departamento de pesquisas da Fundação Carlos Chagas (FCC).

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