O status social do professor da Educação Básica é baixo – e isso tem consequências

2019-03-22T12:24:33+00:00 22/03/2019|

Pesquisa da UFF-FGV mostra que 35% dos estudantes que concluíram a licenciatura não tinham a intenção de se tornar professores

Já escrevi neste espaço sobre fatores que influenciam a decisão de seguir a carreira de professor da Educação Básica em países como Estados Unidos e Reino Unido. Também abordei estudos nacionais que mostram que a carreira docente é mais atrativa a jovens de desempenho mais baixo. Agora, quero apresentar dois grupos de pesquisas: um que visa medir o prestígio social dos professores aos olhos da população em geral, incluindo pessoas de todas as idades e de várias categorias profissionais. Um segundo grupo procura compreender como jovens, pouco antes da entrada no mercado de trabalho – ou até mesmo mais cedo, antes de escolher o curso superior – enxergam a ocupação de professor, e quais características os atraem ou os repelem.

Financiado pela Fundação Varkey, com abrangência internacional e coordenado por renomados acadêmicos, um estudo sobre percepções acerca da ocupação de professor tem recebido grande destaque. O trabalho investiga muitas questões importantes, sobre características da ocupação, salários, jornada de trabalho etc. Um de seus resultados mais repercutidos, e que inclusive dá nome ao próprio relatório, é o chamado Global Teacher Status Index (ou Índice Global de Status de Professores), indicador do valor atribuído pelos cidadãos de diferentes países à ocupação docente, expresso numa escala crescente, de 0 a 100.

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A primeira edição da pesquisa, divulgada em 2013, cobria 21 países de vários continentes e diferentes níveis de desenvolvimento, inclusive o Brasil. A segunda, que veio a público no final de 2018, incluiu 35 países. O Brasil ficou na última posição. Professores dos nossos vizinhos latino-americanos, como Argentina (31º lugar), Colômbia (26º), Peru (25º) ou Chile (22º) ostentam patamares mais elevados de status social que seus pares brasileiros.

Em uma pesquisa conduzida por uma equipe da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em 2014, entrevistamos cerca de dois mil concluintes de cursos presenciais de Pedagogia e de sete licenciaturas que formam futuros professor, uma amostra representativa dos pouco mais de 300 mil concluintes desses cursos em âmbito nacional. Inspirados pelo relatório “Índice Global de Status de Professores” de 2013, incluímos uma questão que pedia ao entrevistado que indicasse quais profissões eram socialmente mais, menos, ou igualmente prestigiosas em relação à de professor da Educação Básica.

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Tomando a média das respostas, foram classificados como mais prestigiosos os seguintes profissionais: médico, advogado, engenheiro, professor do Ensino Superior, cientista da computação, publicitário, contador, enfermeiro e policial militar – os três últimos em patamares próximos à igualdade com professor. Comerciante e assistente social também ficaram bem próximos, mas um pouco abaixo. Somente bibliotecário foi considerado definitivamente menos prestigioso que professor da Educação Básica. Isso mostra claramente que a profissão não goza de um prestígio muito alto, nem mesmo entre estudantes que um dia escolheram cursar uma licenciatura conducente à docência, muitos dos quais se tornarão professores.

Mas, afinal, o baixo prestígio social do professor tem consequências práticas?

Pesquisas sugerem que sim, a começar por afugentar da profissão jovens que poderiam ser bons professores. Uma questão-chave da mesma pesquisa UFF-FGV indagava os entrevistados a respeito de sua intenção de se tornar professor da Educação Básica, e as respostas repartiram-se assim:

Para compreender bem o significado desses números, é importante relembrar: tratam-se de concluintes de licenciaturas – pessoas que em algum momento devem ter considerado a possibilidade de se tornar docentes como algo provável, ou ao menos possível. A amostra não incluía alunos que abandonaram seus cursos antes disso. Parece preocupante, portanto, que apenas seis em cada dez concluintes de licenciaturas manifestem a intenção de seguir a profissão de professor. Quantos talentos são desperdiçados ao longo do processo? Muitos na escolha do curso superior; tantos outros ao longo dos anos iniciais. Dos sobreviventes, 35% não pretendem ser professores e 5% estão na dúvida…

Por meio de cruzamentos entre a questão-chave do questionário com outras perguntas, pudemos avançar melhor no entendimento da decisão dos jovens. Aos que pretendiam se tornar professores, pediu-se que apontassem as razões de sua escolha. As principais denotavam:

  1. Gosto pelo ofício e confiança nas próprias habilidades para ensinar;
  2. Boas experiências no estágio docência;
  3. Questões práticas (estabilidade de emprego e renda, conciliação entre emprego e vida familiar – sobretudo entre mulheres –, facilidade de encontrar emprego);
  4. Ser o curso uma forma de acesso, no futuro, a cargos administrativos.

Aqueles que não queriam ser professores destacavam como principais motivações:

  1. Baixos salários;
  2. Más condições de infraestrutura e material de apoio;
  3. Falta de valorização social da profissão;
  4. Falta de clareza em planos de carreira, modalidades de contratação e política salarial;
  5. Violência física e verbal nas escolas;
  6. Carga de trabalho pesada.

O baixo prestígio e os demais problemas destacados afastam concluintes de iniciar o exercício da profissão. O impacto não é uniforme, mas sim correlacionado à condição socioeconômica. Os concluintes que esperam ser professores, por exemplo, têm mães com menor nível de instrução: 54% têm no máximo 9 anos de estudo, contra 39% no outro grupo. Quadro semelhante vale para os pais: 59% versus 44%. Têm Ensino Superior completo ou incompleto 15% das mães e 12% dos pais dos concluintes que queriam ser professores, contra 25% e 22%, respectivamente, dos que não o desejavam. A renda domiciliar per capita mensal média também revelava vantagem ao grupo dos que pretendem desistir da profissão: R$1.304 contra R$1.126. Trabalhando com a sub-amostra dos estudantes de instituições de Ensino Superior privadas, constatou-se que 46% dos alunos que planejavam ser professores foram os principais responsáveis pelo seu próprio custeio durante o curso, contra 37% no outro grupo.

Também encontramos indícios de que o poder de repulsa da profissão não se distribui igualmente segundo indicadores (imperfeitos) de desempenho acadêmico. Os concluintes que almejavam ser professores tinham um histórico pior: 19% haviam sido reprovados ao menos uma vez no Ensino Fundamental; 13% ao menos uma vez no Ensino Médio; contra 13% e 9%, respectivamente, no outro grupo. Quanto ao conhecimento autodeclarado do idioma inglês, 54% dos futuros professores afirmavam que seu nível era ruim ou péssimo e somente 13% o classificavam como bom ou ótimo; os números análogos para o outro grupo eram 37% e 28%.

Sabemos que pouco prestígio, baixos salários e atratividade restrita a certos perfis de indivíduos são fenômenos indesejáveis e que estão associados uns aos outros. E todos eles estão associados ao aprendizado dos alunos, como indicam correlações positivas encontradas no cruzamento entre o Índice Global de Status de Professores com os resultados de alunos no PISA (Programme for International Student Assessment), uma avaliação internacional de alunos. A questão que se coloca agora é: como mudar isso?

*Fabio Waltenberg é doutor em economia pela Université Catholique de Louvain, na Bélgica, e professor da Universidade Federal Fluminenese (UFF). Estuda economia da Educação e coordenou o projeto “Escolha ocupacional pelo magistério: por que muitos bons alunos não se tornam professores?”, de 2013.

Para saber mais:

  • A pesquisa com concluintes de licenciaturas consta do relatório final da pesquisa “Escolha ocupacional pelo magistério: por que muitos bons alunos não se tornam professores?”, apoiada pela Fundação Lemann e pelo banco Itaú-BBA por meio do 1º Edital de Pesquisas em Educação.
  • A pesquisa Global Teacher Status Index encontra-se aqui