Estudo “A Educação Não Pode Esperar”: 82% das redes de ensino municipais ofertam atividades aos estudantes durante a pandemia

2020-08-18T10:24:48-02:00 19/06/2020|

Pesquisa do Iede, CTE-IRB e Tribunais de Contas indica também que 84% das redes estão se planejando para a volta às aulas

O estudo “A Educação não Pode Esperar”, lançado no dia 19 de junho de 2020, mostrou que 82% das redes municipais de ensino estavam ofertando conteúdos pedagógicos aos estudantes, enquanto 18% ainda não haviam se organizado para tal – sendo que, destas, metade não tinha estratégias sendo formuladas para o ensino remoto. A pesquisa é resultado de um esforço conjunto entre o Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), o Comitê Técnico da Educação do Instituto Rui Barbosa (CTE-IRB) e 26 Tribunais de Contas brasileiros e foi realizada entre os meses de maio e junho.

Acesse aqui o estudo “A Educação Não Pode Esperar”

Em relação aos aspectos pedagógicos, o estudo mapeou os tipos de conteúdos disponibilizados a cada etapa de ensino (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio) e sua periodicidade, assim como as ferramentas utilizadas para que cheguem aos estudantes e os meios encontrados por cada rede para atender aqueles que não possuem acesso à internet, moram na zona rural ou possuem algum tipo de deficiência. Além disso, o levantamento indica também como esses conteúdos são planejados: 93% das Secretarias de Educação disseram que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) norteia as atividades; 87%, apontaram o Currículo de Referência; e 83%, o Plano Político Pedagógico (PPP).

Entre as redes de ensino que estão disponibilizando conteúdos, observou-se, em grande parte delas, uma mescla de ferramentas on-line e off-line. Aos estudantes que têm acesso à internet, aulas via plataformas como Google Classroom, aplicativos ou vídeos e arquivos no site da Secretaria Municipal de Educação. Aos que não têm acesso à internet, atividades impressas que podem ser retiradas na escola — algumas redes disseram entregar os materiais nas residências dos estudantes que têm dificuldade ir até a unidade de ensino, utilizando para isso o transporte escolar ou carro próprio da Secretaria.

“São utilizados o site da Secretaria de Educação e plataformas digitais (YouTube); e rádio e TV Assembleia. De ação off-line, o aluno busca material impresso na escola ou recebe pelo transporte escolar (áreas rurais, indígenas e quilombolas). Há distribuição de pen-drive para quem tem computador, mas não acesso à internet.” – rede estadual do Tocantins

No total, foram analisadas 249 redes de ensino, de todas as regiões do País, sendo 232 municipais e 17 estaduais. Elas responderam a questionários on-line e participaram de entrevistas com técnicos dos Tribunais de Contas. As informações foram sistematizadas e analisadas pelo do Iede e IRB.

“É um estudo para entender melhor o cenário atual e conhecer boas práticas que estão sendo feitas”, afirma Ernesto Faria, diretor-fundador do Iede. “Há muita assimetria de informação, as redes buscam inovar, mas, muitas vezes, em um sistema de tentativa de erro, sem saber o que outras estão fazendo”, completa.

Suporte e formação de professores

Uma questão delicada trazida pelo estudo é o suporte dados aos professores para desenvolverem atividades a distância com os estudantes: 61% das redes pesquisadas admitiram que não ofereciam, na época da pesquisa, formações com esse intuito. Entre aquelas que se sobressaíram nesse aspecto, estava a rede estadual do Espírito Santo, que declarou realizar lives semanais com os profissionais e disponibilizar tutorias e cursos periódicos, com o objetivo de orientar as equipes quanto ao uso das ferramentas digitais em práticas pedagógicas não presenciais.

A rede municipal de Guajará Mirim (RO) chamou a atenção por detalhar as funções esperadas dos professores neste momento, tanto em relação à elaboração de atividades, como de orientação, motivação dos alunos e esclarecimentos de dúvidas.

“Os professores devem: 1. Planejar as aulas não presenciais a serem desenvolvidas; 2. Apresentar à supervisão escolar com antecedência as atividades elaboradas para apreciação; 3. Divulgar o referido planejamento entre os membros da comunidade escolar; 4. Preparar material específico para cada etapa e modalidade de ensino, com facilidades de execução, sendo autoinstrucional, por meio de videoaula, material impresso, conteúdos disponibilizados em grupo de WhatsApp da turma, correio eletrônico e outros meios digitais que viabilizem a realização das atividades escolares por parte dos estudantes; 5. Monitorar a execução das atividades pelo estudante nos meios pelos quais as aulas e atividades forem disponibilizadas; 6. Registrar as Atividades Pedagógicas Remotas (APRs) desenvolvidas em portfólio, constando relatórios descritivos e fotográficos das ações, com gráficos do resultado do rendimento do estudante.” – Rede municipal de Guajará Mirim (RO)

Planejamento para a volta às aulas

O estudo contemplou também como as redes estavam se preparando para a volta às aulas: 84% das municipais disseram que estavam se organizando. Entre as redes estaduais, 15 de 17. Além disso, 79% das redes municipais declararam ter estratégias específicas para evitar o abandono e a evasão – questões apontadas por especialistas como cruciais. Todas as 17 estaduais afirmaram que estão se preparando para enfrentar esses desafios.

A rede municipal de Salvador (BA) contou como está se preparando que nenhum aluno deixe a escola:

“Atualmente, via contato dos gestores escolares com as famílias nas redes sociais, por e-mail e telefone; e estabelecendo vínculo do estudante com a escola por meio das atividades pedagógicas distribuídas e disponibilizadas na plataforma digital. Após o retorno, as escolas da rede municipal contam com um estudante de pedagogia que atua como Agente da Educação, promovendo a articulação entre a escola, a família e a comunidade. A principal atribuição do Agente da Educação é combater o abandono e a evasão escolar, por meio de ações preventivas e visitas à residência do estudante infrequente” – Rede municipal de Salvador (BA)

Os receios em relação à reabertura das escolas são muitos e foram agrupados em cinco grandes grupos: 1. Como garantir a segurança dos estudantes, educadores e funcionários, evitando a propagação do vírus no ambiente escolas; 2. Como combater o abandono; 3. Como cumprir as 800 horas letivas, garantindo equidade na aprendizagem; 4. Como lidar com o impacto emocional da pandemia nos alunos e profissionais; e 5. Sobrecarga do sistema com aumento do número de estudantes oriundos da rede particular.

“Estamos falando de um novo sistema educacional que, mesmo com a volta às aulas presenciais, não vai funcionar da mesma forma. Precisamos pensar em como fazer esse sistema rodar. O mapeamento mostra muitas ações sendo feitas, mas necessitamos de cada vez mais informações para que possamos guiar o trabalho dos Municípios”, afirma Faria.

Outros pontos mapeados foram em relação ao cumprimento da Lei nº 13.987, que autorizou, em caráter excepcional, a distribuição de gêneros alimentícios adquiridos com recursos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) aos pais ou responsáveis pelos estudantes da rede pública; e também sobre o quanto as redes se sentiam seguras juridicamente sobre as ações que adotavam.

Acesse aqui o estudo “A Educação Não Pode Esperar”