Coluna Pesquisa Aplicada, na Nova Escola: O que leva alguém a escolher a carreira de professor?

2018-06-21T12:16:02+00:00 21/06/2018|

Estudos internacionais apontam os fatores que influenciam na atratividade da carreira. Salário é fator chave, mas não o único

Por Fabio Waltenberg, para a Nova Escola

A carreira de professor da Educação Básica não é muito atrativa no Brasil e essa baixa atratividade gera empecilhos à melhoria da qualidade da educação no país. Essas são duas hipóteses de um estudo que um grupo de pesquisadores, do qual faço parte, começou há cerca de 5 anos, com o objetivo de desvendar as principais razões para a (suposta) baixa atratividade da carreira docente. O tema se revelou tão interessante que seguimos trabalhando em desdobramentos dele até hoje. Nesta e em outras colunas, contarei um pouco sobre o andamento da investigação, resultados que encontramos e questões que ainda permanecem em aberto.

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Primeiramente, em qualquer pesquisa, uma das etapas iniciais é a chamada “revisão de literatura”, em que o pesquisador parte do princípio de que não foi o primeiro a pensar no assunto. Ele procura então se apoiar no conhecimento já disponível, para só depois acrescentar sua própria contribuição. Em nosso caso, procuramos nos informar sobre o que já haviam constatado a respeito dos motivos que levam um jovem a seguir a carreira de professor da Educação Básica, bem como aquilo que o afasta. No jargão dos economistas, o nome que se dá a esse tipo de decisão é escolha ocupacional. Nossa revisão procurou ser abrangente, investigando desde reflexões teóricas até análises concretas no Brasil e no mundo, tanto que uma síntese desse trabalho foi apresentada em um Congresso de Economia da Educação, na Espanha, em 2015 (disponível aqui, em inglês).

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Encontramos uma publicação muito esclarecedora, de autoria do britânico Peter Dolton, que há décadas se dedica a estudar o mercado de trabalho de professores no Reino Unido e em outros países desenvolvidos. A motivação para esse trabalho de Dolton em particular é a carência de professores, que ele aponta como fenômeno intenso e recorrente. Como ilustração, ele menciona relatório da UNESCO de 1967, segundo o qual em 83 de 91 países pesquisados havia queixas de tal carência. Para nós, foi surpreendente descobrir que aquilo que nos preocupava no Brasil da década de 2010 já era fonte de inquietação mais de meio século antes em dezenas de países!

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No estudo da literatura sobre o assunto, um primeiro elemento a destacar é que a chamada “oferta de trabalho de professores” depende de fatores que nós economistas posicionaríamos no lado da “demanda de professores”. Em cada local e em cada momento, a quantidade de professores necessários, isto é, a demanda dependerá: 1. do número de crianças, jovens e adultos de cada idade a educar; 2. da legislação sobre a extensão da escolaridade obrigatória; 3. da jornada escolar; 4. do tamanho das turmas; 5. das taxas de reprovação.

Quase todos esses parâmetros de regulação da demanda de professores estão, ao menos parcialmente, ao alcance do formulador da política pública. Mas, mais do que isto, são também determinantes das condições de trabalho de professores e, consequentemente, da própria atratividade da ocupação. Explico: turmas pequenas demais e reprovação excessiva, por exemplo, são custosas, porque aumentam a necessidade de ter mais professores. Porém, por outro lado, qual professor gostaria de lecionar em turmas abarrotadas ou de ser privado da prerrogativa de reprovar um aluno (sem entrar aqui no mérito sobre a política ideal para tamanho de turma ou reprovação)?

Do lado dos elementos de oferta de trabalho, é importante dizer que uma alta oferta (muita gente querendo ser professor) pode ser sinal de atratividade. Estudos sobre o assunto apontaram remuneração como a variável-chave para aumento da oferta, tanto o salário inicial quanto as perspectivas de incremento ao longo da carreira. De modo geral, o importante é comparar a remuneração de professores com a de outros profissionais de nível de qualificação parecido. Variável-chave, aliás, não apenas da escolha ocupacional inicial, mas também de ingresso, mobilidade entre empregos dentro da ocupação, abandono e regresso a ela. Essas previsões teóricas são confirmadas em grande medida por análises de mercados de trabalho concretos, realizadas em vários países desenvolvidos, sobretudo Reino Unido e Estados Unidos.

Salário importa muito para explicar a escolha pela carreira docente. A expectativa de salários mais elevados, possivelmente, ajudaria a atrair mais candidatos às licenciaturas, motivaria menos alunos a desistir desses cursos, conduziria mais candidatos a se inscrever em concursos de professores, e colaboraria para que menos professores desistissem da profissão. Mas salário não é tudo. Muito mais é apontado como relevante, com destaque para: 1. vocação e experiências prévias; 2. probabilidade de desemprego na docência; normalmente menor que em outras profissões; 3. variância salarial; 4. tempo necessário à formação; 5. duração da vida laboral ativa; 6. a possibilidade de conciliar carreira com vida familiar; 7. condições de trabalho, entendidas de modo amplo – como um balanço de vantagens e desvantagens da docência frente a outras carreiras.

A ocupação de professor pode ser mais atrativa em certos locais que em outros – por exemplo, mais em cidades pequenas que em capitais de estado – em razão de status relativo da ocupação, do poder de compra dos salários, ou do leque de ocupações alternativas disponíveis. A atratividade também pode variar segundo as disciplinas a serem lecionadas – por exemplo, pode haver mais interessados em concluir licenciatura em Português que em Física. Isso , em razão de diferenças de aptidões e gostos, é claro, mas também pelas condições do mercado de trabalho de cada uma delas.

No meu próximo texto neste espaço, abordarei um pouco a questão da escolha ocupacional de professores especificamente no Brasil.

*Fabio Waltenberg é doutor em economia pela Université Catholique de Louvain, na Bélgica, e professor da Universidade Federal Fluminenese (UFF). Ele estuda economia da Educação e coordenou o projeto “Escolha ocupacional pelo magistério: por que muitos bons alunos não se tornam professores?”

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