Bullying e violência na escola: implantação de Equipes de Ajuda traz bons resultados

2019-08-02T11:26:35+00:00 22/07/2019|

Nas Equipes de Ajuda, os próprios alunos escolhem quais os colegas que irão apoiar os demais. O modelo foi adaptado da Espanha

Novembro de 2017, em Goiânia: um garoto entra armado em uma escola particular e atira contra os colegas. Dois jovens se tornam vítimas fatais. Abril de 2018, em São Paulo: dois alunos de uma mesma escola, em menos de uma semana, se suicidam. Em março deste ano, em Suzano (SP), acontece a maior tragédia em escolas no Brasil: dois atiradores, um deles ex-aluno da escola Raul Brasil, matam professores, alunos e se suicidam antes de serem presos. Em junho, em Carapicuíba, três adolescentes são detidos e enviados à Fundação Casa depois de vandalizar e agredir uma professora na escola em que estudavam. Todos esses casos têm algo em comum: são jovens que cometem formas de violência a si ou aos outros.

Cito esses casos para mostrar que nem todos aconteceram na escola, mas todos a atingiram diretamente. Bullying, cyberbullying, incivilidades, agressões, automutilações, suicídios ou pensamentos suicidas são temas que não podem mais estar ausentes nos planos educacionais. Problemas de automutilação, por exemplo, são cada vez mais frequentes entre os alunos. Dados da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo apontam que os registros de “violência autoinfligida” passaram de 9 em 2017 para 62 somente no primeiro trimestre de 2019. E esse número pode estar bastante subnotificado.

Todos esses casos narrados acima são recentes e posteriores à sanção da Lei Antibullying que previa, desde 2015, medidas de contenção, combate e prevenção ao bullying e uma cultura da paz. A lei foi recentemente incorporada à Lei de Diretrizes e Bases da Educação e é reiterada pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que aponta a necessidade do desenvolvimento de competências para se resolver conflitos de forma assertiva, aprendendo-se a conhecer e valorizar a si e ao outro.

O grupo de estudos e Pesquisas em Educação Moral (GEPEM), da Unesp/ Unicamp, do qual faço parte, começou seus estudos sobre bullying no início de 2007, bem antes da lei antibullying. Na ocasião, efetuamos o primeiro diagnóstico do problema em escolas públicas e particulares da região metropolitana de Campinas e encontramos resultados similares aos que, naquele momento, estavam sendo encontrados em diferentes países.

Logo depois, entre outras investigações realizadas, buscando identificar a percepção sobre o bullying dos gestores de escolas públicas localizadas em diversas regiões do estado de São Paulo (TOGNETTA; VINHA, 2013) e verificamos que 27% dos entrevistados negavam ou banalizavam o problema; 11,5% confundiam-no com outras situações e ainda 46,1% atribuíam a responsabilidade de resolução à família. Tais dados nos mostravam que, ao se omitir diante do fenômeno, a escola propagava a cultura que é força motriz da violência. Contravalores como a injustiça, a intolerância, a força e o poder tendem a se tornar mais importantes quando não se tem espaços para a aprendizagem dos valores morais.

Nossos estudos prosseguiram com o objetivo de, mais do que diagnosticar situações de bullying nas escolas brasileiras como até hoje se faz, buscar a compreensão do fenômeno psicológico. Isso nos levou a entender a dinâmica grupal que perpetua o problema: fragilidade de uma vítima incapaz de se defender, um agressor intencionado e desengajado moralmente e um grande conjunto de espectadores que não são indiferentes, como alguns estudos defendem.

É necessária construção coletiva de regaras para superar incivilidades

Os dados de investigações atuais mostram que alunos que assistem a situações de bullying percebem os problemas individuais de seus colegas, mas poucos sabem o que fazer. Somado à falta de instrumentalização para a ajuda, há ainda um “espírito” que os assombra de que naquele grupo social do qual fazem parte (no caso, a escola) não há espaços para a solidariedade, para a aprendizagem da resolução assertiva dos conflitos e para o desabafo. Eles sabem dos problemas dos colegas – solidão, tristeza, etc – mais do que seus professores, e querem ajudar, mas não sabem como.

Pesquisas no mundo todo têm mostrado que a eficácia do combate ao bullying e demais problemas nas relações entre pares está em se organizar na escola redes de apoio em que os próprios alunos sejam formados para ajudar.

Na mesma perspectiva, nossos estudos sobre o desenvolvimento da autonomia moral no Brasil têm mostrado que para a superação de incivilidades e de indisciplina, é necessária a construção coletiva de regras que regulem a convivência e de propostas em que, efetivamente, os alunos possam pensar e tomar decisões, reparar seus erros e terem seus sentimentos respeitados.

Foi assim que em 2015 iniciamos a implantação de um tipo de SAI (Sistema de Apoio entre Iguais) no Brasil na busca por melhorar a qualidade de vida e o clima escolar nas instituições educativas. A implementação de um tipo de SAI não seria suficiente se não fosse parte de um Programa de Convivência em que mais ações de intervenção e prevenção ao problema são realizadas. Esses programas têm sido organizados e coordenados por Telma Vinha (VINHA, et al, 2016) junto a pesquisadores do GEPEM. Assim como diferentes investigações fora do Brasil têm apontado a eficácia dos SAIs, seguindo a lógica dos bons resultados encontrados, optou-se por um modelo espanhol: as Equipes de Ajuda. Esse tipo de sistema foi organizado pelo professor e pesquisador José Maria Avilés Martínez, na Espanha, e adaptado por mim à realidade brasileira. Começamos, assim a primeira fase da implantação de um tipo de SAI no Brasil.

Primeira fase da implantação das Equipes de Ajuda no Brasil

Uma das características peculiares das Equipes de Ajuda é a escolha realizada pelos próprios alunos que apontam para uma colega ou um colega a quem “confiariam um segredo”. Isso acontece depois de uma série de atividades que fazem os alunos compreender os valores e necessidades de superação dos problemas de convivência entre eles mesmos. Outra característica fundamental deste modelo é o fato de que os estudantes “trabalham em equipe” e, assim, fortalecem-se diante de desafios que são difíceis de serem solucionados e mesmo suportados por serem adolescentes.

As alunas e alunos escolhidos entre seus pares recebem formação sobre como identificar e lidar com os problemas dos colegas. Eles atuam de forma colaborativa e são orientados por seus tutores nos casos que têm mais dificuldade de tratar. O sistema traz muitos benefícios às instituições escolares, visto que promove o protagonismo dos estudantes, a conscientização sobre a importância da ajuda, contribui para formação do sujeito que exerce a ajuda, tornando-o mais atento a si mesmo e ao outro empático, capaz de reconhecer os seus sentimentos e os dos outros, tolerante e respeitoso.

Resultados das Equipes de Ajuda

As pesquisas que tenho conduzido e orientado sobre o assunto no Brasil têm mostrado perspectivas bastante promissoras. A primeira investigação teve como objetivo verificar se na concepção dos alunos, antes e após a implementação de Equipes de Ajuda na escola, houve queda ou não na frequência das intimidações.

A resposta foi sim. De acordo com a pesquisa, foi possível observar, ainda que na percepção temporal dos alunos, uma diminuição com relação às formas de intimidações: entre vinte formas de violência apresentadas, oito tiveram diminuição na frequência. Em nenhuma delas foi apontado o aumento. Na comparação entre quem fazia parte do grupo de apoio e quem não tinha participação, verificou-se que a variável “participar da Equipe de Ajuda” não influenciou as respostas que apontaram para a diminuição da frequência dos problemas apresentados (TOGNETTA, SOUZA, LAPA, 2019).

Em outra investigação com professores, intitulada “(Des)engajamento moral e atuação docente frente ao bullying escolar” (TOGNETTA; DAUD; AVILÉS MARTINEZ, 2017), participaram 328 professores vinculados às redes de Educação Básica do interior de Estado de São Paulo. Entre eles, 55 eram professores atuantes em escolas que passaram pelos três momentos da implantação do projeto. Os docentes que tiveram a oportunidade de passar por formações e que convivem em suas escolas com as Equipes de Ajuda demonstram um julgamento moral mais desenvolvido que os demais. Nesse sentido, traz-se à tona o quanto a formação do docente é necessária e complementar.

Em outro estudo, Lapa (2019) encontrou uma diferença significativa: acontecem mais intimidações nas escolas em que não há Equipes de Ajuda do que naquelas que contam com esses grupos. Já Bomfim (2019) teve como objetivo comparar a adesão a valores morais – o respeito, a justiça e a solidariedade – entre três grupos de alunos: 1. membros de Equipes de Ajuda; 2. alunos que não fazem parte das equipes de ajuda em escolas com o programa; e 3. estudantes de escolas que não há Equipes de Ajuda. A investigação apontou que a adesão aos valores morais é maior entre os estudantes que fazem parte das equipes, seguida por aqueles que não são das equipes, mas que pertencem a escolas que têm os trabalhos de protagonismo implementados.

Nos próximos textos abordarei a segunda, terceira e quarta fase de implementação das Equipes de Ajuda nas escolas do país e os resultados de outras pesquisas sobre assunto.

Luciene Tognetta realizou doutorado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP e doutorado sanduíche pela Universidade de Genebra. Pós doutora pela Universidade do Minho (Portugal). É professora da Unesp de Araraquara, pesquisadora e líder do GEPEM (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral), da Unicamp/Unesp e organizadora do Programa de Implantação das Equipes de Ajuda no Brasil.

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Para saber mais

NADAI, S. C. T. de. Disciplina de educação parental e participação em processo de vitimização entre pares. 2019. 192f. Dissertação (Mestrado em Educação Escolar), Faculdade de Ciências e Letras, Unesp, 2019.

KNOENER, D. F. B. Quando a convivência pede por cuidado: bullying e assédio moral em ambientes universitários. 2019. 294f.  Dissertação (Mestrado em Educação Escolar), Faculdade de Ciências e Letras, Unesp, 2019. 

SOUZA, R. A. de. Quando a mão que acolhe é igual a minha: a ajuda em situações de (cyber)bullying entre adolescentes. 2019. 161f.  Dissertação (Mestrado em Educação Escolar), Faculdade de Ciências e Letras, Unesp, 2019.

LAPA, L. Z. Valentes contra o bullying: a implantação das Equipes de Ajuda, uma experiência brasileira. 2019. 315f. Dissertação (Mestrado em Educação Escolar), Faculdade de Ciências e Letras, Unesp, 2019. 

BOMFIM, S. A. B. Respeito, justiça e solidariedade no coração de quem ajuda: valores morais e protagonismo entre alunos para combater o bullying. 2019. 210f.  Dissertação (Mestrado em Educação Escolar), Faculdade de Ciências e Letras, Unesp, 2019. 

TOGNETTA, L.R.P.; SOUZA, R.A.; LAPA, L. A implantação das Equipes de Ajuda no Brasil: primeiros resultados. Relatório de pesquisa, 2019.

TOGNETTA, L.R.P.; AVILÉS MARTÍNEZ, J.M.; SOUZA, RAUL.A; DUARTE, L A percepção de estudantes sobre a convivência na escola: um estudo sobre contribuições dos Sistemas de Apoio entre Iguais em instituições escolares brasileiras e espanholas. Relatório de Pesquisa, 2019.