Como as pesquisas ajudam a pensar no planejamento da volta às aulas?

2020-09-23T11:04:43-03:00 22/09/2020|

Confira três perguntas fundamentais para refletirmos sobre a reabertura das escolas

Por Ernesto Faria, para a Nova Escola

As aulas presenciais nas escolas brasileiras foram suspensas na metade de março, impactando 47,9 milhões de estudantes da Educação Básica. Passados 6 meses, poucos estados e municípios reabriram suas escolas. O primeiro deles foi o Amazonas. No estado de São Paulo, as escolas tiveram a opção de reabrir no dia 8 de setembro, mas apenas para atividades de reforço e acolhimento. As aulas mesmo estão previstas para serem retomadas a partir de 7 de outubro.

A discussão sobre volta às aulas segue acalorada e, por vezes, dividida entre um Fla X Flu reducionista: aqueles que acham que as escolas já deveriam ter reaberto e os que defendem que isso ocorra somente ano que vem, quando tivermos vacinação em massa. Mas, antes de definir qualquer posição, considero que há três perguntas principais que precisam ser respondidas de acordo com o contexto local da escola, professores, funcionários e alunos:

1. Há condições para a comunidade escolar voltar com segurança?
Essa é a pergunta que mais norteia a discussão no Brasil hoje, seja na Educação ou em outra área. A nossa taxa de contágio já nos permite voltar a vida “normal”? De acordo com o médico Hermano Castro, diretor da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, da Fiocruz, o ideal para diminuir a contaminação e a transmissão comunitária (e sair do isolamento) é que a taxa de contágio – o valor de R no gráfico abaixo – esteja na faixa de 0,5, conforme recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS). Conforme podemos observar no gráfico atualizado diariamente pelo Loft Data Science, a taxa no Brasil é de 0,84 (longe ainda da faixa de 0,5) e em três estados segue acima de 1 – no dia 17 de setembro.

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Valor por estado brasileiro. Fonte: Loft Data Science. Consultado em 17/09/2020

Aqui é onde talvez more um dos principais problemas: no Brasil, retomamos parcialmente atividades econômicas e de lazer com uma taxa de contaminação ainda muito alta. Na cidade de São Paulo, por exemplo, o comércio de rua foi autorizado a reabrir no início de junho, por 4 horas diárias, que foram estendidas gradualmente. Isso, na visão de alguns especialistas, pode ter feito com que demorássemos mais para chegar em um patamar estável de contaminação, fazendo com a reabertura de escolas tivesse que ser adiada.

O estudo “Planejamento das redes de ensino para a volta às aulas presenciais: saúde, permanência e aprendizado”, feito pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede) em parceria com o Comitê Técnico da Educação do Instituto Rui Barbosa (CTE-IRB), dá um panorama de como as redes de ensino estão em relação a seis grandes aspectos do planejamento para o retorno. Um deles, o de ações para garantir a saúde e segurança da comunidade escolar, recebeu a cor laranja, que representa que há muito por ser feito nesse quesito. Confira no infográfico abaixo o cenário traçado pelo levantamento.

A análise, realizada a partir de entrevistas em profundidade com 20 secretários de Educação, mostra a existência de dois grupos bem distintos de redes: um com protocolos de biossegurança bem estruturados e já na fase de distribuição dos equipamentos de proteção individual (EPIs) às unidades escolares; e outro que sequer possui protocolos sanitários ou estes são bastante elementares, e ainda não adquiriram produtos de higiene. Portanto, para parte das redes entrevistadas, ainda há muito por ser feito para garantir as condições adequadas em termos de segurança e saúde para o retorno.

2. Os alunos seguem no sistema educacional?
Educação Não Pode Esperar, realizada pelo Iede em parceria com o CTE-IRB, mostrou que, no mês de maio (dois meses após o fechamento das escolas), 18% das secretarias de Educação entrevistadas não tinham qualquer estratégia de oferta de conteúdos remotos. Entras aquelas com ações, a maioria garantia ter controle do número de estudantes com acesso às atividades, mas esse monitoramento, muitas vezes, era somente em relação ao recebimento das atividades, mas não à sua realização em si. Percebemos que muitos alunos estão se distanciando do sistema educacional e muitas redes não têm conseguido engajar sua participação nas aulas remotas.

O já citado estudo “Planejamento das redes de ensino para a volta às aulas presenciais: saúde, permanência e aprendizado” mostra que as ações para evitar o aumento do abandono e da evasão é o ponto mais frágil dentre os seis analisados – único a receber bandeira vermelha, como é possível verificar no infográfico acima. São raras as secretarias com ações consolidadas e que assumem o protagonismo na busca ativa dos estudantes – trabalho essencial seja para as escolas que optarem por permanecer no remoto ou decidirem voltar presencialmente.

3. Os que permanecem no sistema estão aprendendo no modelo remoto?
Na visão dos próprios professores, os estudantes estão aprendendo menos do que antes. É o que mostra o estudo “Educação escolar em tempos de pandemia na visão de professoras/es da Educação Básica”, realizado pela Fundação Carlos Chagas (FCC), que ouviu 14.285 docentes dos 26 Estados e do Distrito Federal. Para 49,7%, a aprendizagem dos alunos diminuiu; 15,9% dizem que não mudou; 8,6% que aumentou; e 25,7% não souberam informar. A dificuldade para manter a rotina de estudo tem sido crescente, indica a terceira pesquisa da série “Educação Não Presencial na Perspectiva dos Estudantes e suas Famílias”, realizada pelo Datafolha a pedido do Itaú Social, Fundação Lemann, mantenedora de NOVA ESCOLA, e Imaginable Futures. Em maio, 58% das famílias disseram que os estudantes estavam tendo dificuldades para manter a rotina de estudos; em julho, o percentual subiu para 67%.

É fundamental criarmos condições para que os alunos não percam o vínculo com a escola e que esta consiga monitorar como está a aprendizagem de cada um, por meio, por exemplo, da realização de avaliação diagnóstica.

A forma como isso será feito não deve ser igual em todo o país: provavelmente, algumas redes já estão (ou estarão neste semestre) aptas a possibilitar que o estudante vá presencialmente à escola uma ou duas vezes na semana sem que isso coloque em risco sua saúde; já outras, apenas a cada 15 dias devido ao tamanho das turmas ou às condições de infraestrutura das unidades. O mais importante é que o sistema educacional não fique tão distante dos estudantes por tempo tão prolongado. Considerando a retomada das atividades econômicas, é preciso que as secretarias de Educação e escolas se planejem para um retorno seguro, acolhedor e que considere o percurso de aprendizagem feito até aqui. Não pensar em estratégias para a volta das escolas sinaliza descaso com a Educação.

É difícil apontar um cenário único para o Brasil em relação ao retorno, porque a taxa de contágio e as condições das escolas e redes de ensino são diversas. No entanto, entendo que além de nos questionarmos sobre a situação sanitária, precisamos pensar sobre o retorno também considerando os abandonos desse período e as ações que estão sendo realizadas para manter os alunos no sistema educacional e com um bom nível de aprendizagem.

Ernesto Faria é diretor-fundador do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede)

Este texto foi originalmente publicado no site da Nova Escola